ENTREVISTA: Egidio Trambaiolli Neto

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Prof. Egidio Trambaiolli Neto

Entrevista com o Prof. Egidio Trambaiolli Neto, retirada do blog PINDORAMA.

Com um currículo extenso, que inclui várias publicações, além de colaboração em projetos como o programa Pequenos Cientistas, da TV Cultura, o Professor Egidio Trambaiolli tem sido responsável por trabalhos de qualidade que visam contribuir para a educação do público infanto-juvenil.

Quem conhece seu trabalho percebe que suas obras são feitas com muito carinho e muito amor à nossa cultura, e há sempre o interesse em divulgar, discutir e conscientizar as pessoas sobre questões sociais importantes, que muitas vezes são negligenciadas pela grande mídia. Um exemplo é sua obra Pinóquio do asfalto, em que o autor retrata, através de um paralelo com a fábula do “boneco que queria ser um menino de verdade”, a triste realidade de milhares de crianças que vivem à margem da sociedade.

Demonstrando em suas obras uma consciência esplêndida sobre a sociedade brasileira e sua cultura, o Prof. Egidio Trambaiolli também tem divulgado nossa cultura ancestral através de personagens e através da mitologia nascida em nossa terra. E é sobre essas obras que conversamos com o autor em uma entrevista concedia, com muita simpatia.

Segue a entrevista com o Prof. Egidio Trambaiolli Neto.

PINDORAMA – Fale um pouco sobre a Editora Uirapuru. Como surgiu a ideia de criar a Editora, qual seu objetivo, qual o seu diferencial para o mercado editorial? Qual a razão da escolha do nome “Uirapuru”?

PROF. EGIDIO – A Editora Uirapuru surgiu a partir da minha experiência profissional junto a várias editoras, a maioria dedicada ao ramo de livros didáticos e paradidáticos. A partir dessa vivência, após treze anos realizando assessorias ou trabalhando em editoras, optei em criar uma editora, em sociedade, que se diferenciasse das demais, com uma proposta que contribuísse de forma contundente com os valores humanos, com a educação e cultura nacional. A partir desses conceitos, surgiu a Editora Uirapuru e o nosso lema: “Trabalhar com Valores Humanos é a Nossa Especialidade”, algo que temos nos esmerado para cumprir em todos os âmbitos.

girassóisO nome Uirapuru foi escolhido após uma pesquisa que nos revelou algo desconhecido para muitos, que em algumas tribos da Amazônia, o uirapuru é o pássaro que representa a cultura e a sabedoria, a ponto de apenas o cacique e o pajé poderem utilizar as penas dessa ave como adorno pessoal. Como a nossa linha editorial está diretamente relacionada à cultura e ao saber, o nome uirapuru se mostrou apropriado.

PINDORAMA – Em suas obras podemos ver muitas referências à cultura indígena, como é o caso dos livros Girassóis de Tabarana, Ulisses no país das Maravelhas e Akangatu, entre outros. Nessas obras podemos perceber que houve um trabalho de pesquisa para se desenvolver as histórias, como fica evidente em Akangatu, em que é apresentada a Matemática tupi-guarani. Como surgiu esse interesse pela cultura indígena?

PROF. EGIDIO – Meu primeiro livro com a temática indígena foi A Jaçanã, publicado pela Editora FTD, lançado em meados dos anos 90. O conceito usado neste livro envolve mostrar as raízes do nosso povo e a contribuição cultural trazidas pelo branco, negro e índio para algumas regiões brasileiras, como o Bairro Jaçanã, da capital paulista, o bairro em que nasci. Isso exigiu muitas pesquisas e uma imersão cultural incrível. Curiosamente, a Editora Uirapuru também está localizada no Jaçanã, à Avenida Guapira, que também é um nome indígena.2033_resized_300x400

O aprendizado dessas pesquisas estimulou a criação de outras obras que também se associassem à cultura indígena, como os livros Girassóis de Tabarana, Ulisses no País das Maravelhas e Akangatu, que trabalham com vários elementos culturais de nossas raízes e dos povos que contribuíram para a formação da população brasileira.

Outros livros virão, podem aguardar, pois a riqueza cultural existente é enorme e já estamos trabalhando nesse sentido.

PINDORAMA – Em sua opinião, qual a importância da cultura indígena para a sociedade brasileira?

PROF. EGIDIO – É curioso como convivemos com palavras e nomes indígenas e nem damos conta disso. Basta se observar o nome de estados, cidades, bairros, ruas, rios e até clubes de futebol para perceber essa profunda relação: Goiás, Pernambuco, Paraná, Ceará, Pindamonhangaba, Itápolis, Campos dos Goytacazes, Curitiba, Itaquaquecetuba, Tucuruvi, Guaianases, Ipiranga, Anhangabaú, Ibirapuera, Tamanduateí, Solimões, Carajás, Guarani, Bangu, Ceará… são muitos os nomes. Palavras como mandioca, curumim, capanga, jerimum, entre tantas outras são indígenas. O folclore também está recheado de lendas indígenas: Iara, Jaci, Curupira, Boitatá e por aí vai. Isso mostra a nossa riqueza cultural que, se não fosse a invasão cultural de outros países como EUA, Inglaterra e Japão, receberia a atenção adequada. Infelizmente o Brasil importa cultura e despreza as riquezas que tem.

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PINDORAMA – Como tem sido a recepção do público infantil quanto às suas obras?

PROF. EGIDIO – É curioso como a criança se identifica com as questões culturais brasileiras. Por incrível que pareça, são os que mais motivam a aquisição das obras. Talvez elas estejam cansadas da mesmice da cultura que importamos, o problema é que quando crescem, não dispõem de livros que tenham essa temática. As editoras que trabalham com livrarias optam por investir em traduzir um Harry Potter cheio de referências britânicas, do que investirem em autores nacionais, com temas nacionais, com a riqueza de nossa cultura. Hoje um jovem sabe mais de bruxos, elfos e sobre o Rei Arthur, do que sobre Tupã, Jaci e a Caipora.

Para tentar mudar esse panorama, a Editora Uirapuru está investindo em livros para jovens estruturados na cultura brasileira, entre eles, temos O Oráculo e o Mentor dos Segredos, de Ítalo Carvalho, que tem um protagonista índio e elementos da História do Brasil; A Lenda do Cangaceiro Sem-Cabeça, de Ivan Santos, que trabalha com a cultura do povo nordestino e, para o público adulto, O Novo Messias, de Miller Magnussen, uma história que acontece no Pará, e tem capítulos que envolvem povos indígenas. É a valorização do que é nosso.

PINDORAMA – Caso queira, deixe algumas considerações para os leitores do blog.

PROF. EGIDIO – Em primeiro lugar quero parabenizar o blog por usa importante contribuição para a cultura brasileira e para a preservação da memória cultural do nosso povo indígena. É preciso estimular a inclusão de elementos culturais junto ao nosso povo, as escolas ensinam Sistemas de Numeração romano, maia, egípcio e indo-arábico, e desprezam a lógica da forma de contar dos nossos índios, isso é triste! As editoras preferem investir em livros com temáticas europeias e americanas do que apostar em nossas raízes, optam por importarem mangás do que desenvolver produtos com a nossa temática, isso condiciona o leitor e é viciante! Assim, o povo acaba buscando produtos com informações do que já conhecem um pouco, como o que se oferece é a cultura importada, cada vez mais os leitores mergulham em um universo fora do nosso contexto, da nossa cultura, do que é relativo ao nosso povo. Infelizmente não vejo lógica em exaustivos trabalhos escolares focados em princesas medievais, em contos dos Irmãos Grimm, em uma realidade avessa que já será empurrada goela abaixo para as crianças pelas emissoras de TV, pelos livros cheios de artifícios e penduricalhos importados até o último pingo de tinta. É importante conhecer a cultura mundial? Sim, sem dúvida! Mas também é fundamental que conheçamos as nossas lendas, os nossos mitos, a nossa mitologia. Enquanto não houver um trabalho com foco maior em nossa cultura nas escolas e principalmente fora dela, continuaremos sendo um povo sem identidade, desunido e que desconhece a sua própria história. É dessa forma que se mata a riqueza cultural de um povo.

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MAIS INFORMAÇÕES: EDITORA UIRAPURU BLOG: PROF. EGÍDIO TRAMBAIOLLI NETO PÁGINA NO FACEBOOK: PINÓQUIO DO ASFALTO

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