CONTOS BR: Manoa.

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MANOA[1]

Francélia Pereira

Um homem chega até o balcão da biblioteca. Uma mulher estava organizando umas fichas. Ele para e olha para um senhor que estava sentado a uma mesa, um pouco distante, analisando vários livros e alguns documentos antigos.

– Aquele homem já está ali faz muito tempo… Quem é?

– Ele falou que é Coronel, e é inglês.

– Hum… Se é assim, melhor deixar o homem quieto, né!

– Estranho um homem que parece tão culto procurando por papéis que ninguém dá valor.

– O que ele procura aqui?

– Pediu uns livros antigos e um documento da época dos bandeirantes…

O homem faz uma expressão assustada.

– Não seria o Documento 512, seria?

A mulher se surpreende com o comentário de seu superior.

– Sim, ele mesmo… Como você sabe disso?

O homem fica pensativo.

– Dê toda sua atenção a esse homem. Se ele lhe pedir algo que você desconheça, por favor, me chame imediatamente.

A mulher fica curiosa, mas não ousa fazer perguntas.

– Sim, senhor!

O homem se afasta do balcão enquanto olha novamente para o inglês misterioso.

 No hotel, o inglês pergunta por seu filho.

– Seu filho e o amigo dele estão na praia, senhor.

– Quando chegarem, diga para irem direto ao meu quarto, por favor.

O homem sobe as escadas do pequeno hotel.

– Hei, Jack! Duvido que você chega até aquelas pedras antes de mim.

Rimel desafia seu amigo. Jack aceita o desafio. Os dois correm sobre a areia branca da praia do Flamengo. Após vários mergulhos e brincadeiras, os dois sentem que os raios do sol se tornam mais fortes, então decidem retornar para o hotel.

Na recepção são informados de que o Coronel os aguardava em seu quarto.

– Pois bem, podem organizar suas bagagens. Partimos hoje mesmo.

– E para onde vamos?

– Como assim… Você não prestou atenção a tudo que contei a vocês?

– Me desculpe, pai. Mas este país é muito grande, e você só falou que as referências indicavam o território central… Mas, onde?

– Estamos de partida para o Mato Grosso.

Após subir o pequeno barranco, Jack olha para trás e observa o velho barco a vapor no rio, o meio de transporte que os levou até Cuiabá.

– Jack! O que foi?

– Nada, Rimel…

Os dois seguem o Coronel Fawcett.

Jack não quis comentar, mas sentiu que aquele não era o momento certo para essa aventura. Quando olhou para o barco, sentiu que deveria retornar.

Após se hospedarem em um pequeno hotel, Fawcett segue até o mercado da cidade. Ele procura por artigos que seriam utilizados na expedição.

– Hum! Esses facões não me servirão. Onde posso encontrar facões ingleses?

– Vai entrar na floresta?

– Pretendo sim.

– O sinhô segue direto aqui, depois vira a esquerda. Vai encontrá a Casa Orlando. Lá tem tudo que o sinhô precisa.

– Obrigado!

Enquanto Fawcett segue até a loja, Jack e Rimel cuidam de encontrar alimentos e remédios para levarem na expedição. Fawcett também providencia o guia e alguns animais de carga.

Em 1925, Cuiabá era uma cidade movimentada por aventureiros, agrimensores e garimpeiros. A Floresta Amazônica ainda contava com várias tribos indígenas que lutavam pela preservação de seus territórios; eles ainda guardavam viva a lembrança da invasão europeia. Muitos aventureiros morriam na floresta, seja por doenças, ataques de animais ou algum confronto com indígenas. A região ainda era pouco explorada.

– Desculpe perguntar… Mas o que o senhor procura na floresta?

– O de sempre.

O coronel responde secamente enquanto avalia um facão. Quando abre sua bolsa, que parecia uma mochila, o vendedor pode ver uma espécie de ídolo de pedra.

– Entendo… O senhor veio atrás de lendas, certo?

Fawcett olha atento para o homem. Pega o dinheiro na bolsa e a fecha, escondendo o ídolo.

– Vou levar este facão.

A presença do coronel, um inglês que carregava um ídolo de pedra, não passou despercebida entre os frequentadores do mercado central. Logo foram se espalhando teorias e lendas envolvendo Fawcett. Quando saiu de Cuiabá para seguir sua rota na floresta, seu nome já corria a cidade.

– Manoa?

Todos caem na gargalhada.

– Então o homem saiu do outro lado do mundo para correr perigos na floresta por causa de uma lenda maluca?

– Bem, o guia não me disse que o coronel procurava por Manoa, mas sim por uma cidade perdida pras bandas da Serra do Roncador.

– É culpa desses índios… Eles gostam de inventar essas histórias, e esses brancos que nunca pegaram em uma enxada na vida acabam se iludindo… Ainda se fosse uma mina de ouro, eu entenderia… Mas, MANOA!

Os homens riem enquanto bebem mais um gole de cachaça.

Logo que a viagem começa floresta a dentro, Jack e Rimel se assustam com a quantidade de mosquitos do lugar. Rimel era fotógrafo, mas nunca havia vivido uma aventura tão perigosa e emocionante quanto essa. Fawcett começa a se arrepender de tê-los levado.

Após alguns dias na floresta, Jack é deixado em um acampamento do governo, pois estava doente. Era o lugar mais indicado para que o rapaz recebesse os devidos cuidados. O coronel decide seguir sem o filho.

 – Daqui em diante eu não posso mais guiar o senhor. Essas são terras de tribos muito hostis.

O coronel limpa um pouco de barro em sua bota.

– Então leve Rimel com você.

Rimel se assusta.

– Mas, coronel…

– Vá com o guia e veja como está Jack.

– Não seria melhor se todos nós voltássemos?

O coronel tira seu anel do dedo.

– Entregue isso a ele.

Rimel compreende a importância da expedição para o Coronel. Ele guarda o anel para entregar ao amigo e segue o caminho de volta junto do guia. Fawcett segue em frente, seguindo sempre a margem do rio que guiava seu caminho.

Após um tempo caminhando, ele para, se alimenta um pouco, depois retira a imagem de Buda que carregava e, diante dela, ele contempla a natureza ao seu redor, depois medita. Quando a meditação se torna profunda, a mente de Fawcett vislumbra um caminho de pedras, brilhando como se fosse feito de ouro. Ele segue esse caminho e, ao fim dele, encontra uma enorme montanha. Nesse “sonho”, Fawcett sente-se decepcionado ao perceber que todo aquele caminho não levava a lugar algum, então ele sente uma presença que se torna bem forte perto dele.

– Fawcett…

Ele ouve uma voz suave chamando seu nome.

– Não desista. Não permita que o medo e a descrença o impeçam de cumprir sua jornada!

Antes mesmo que ele se vire, aquela “presença” desaparece. Ele não a sentia mais. Então a montanha parece tremer, e uma parte dela, como se fosse uma entrada, começa  a ficar translúcida. Nesse momento um pequeno macaco o desperta.

– O que foi, amiguinho!

O coronel sorri para o bichinho. O macaco brinca e o chama para o rio.

– É! Acho que um mergulho me faria bem agora.

Rimel e o guia estão caminhando na floresta, seguindo o caminho de volta.

– Devíamos ter trazido o Coronel…

Rimel arrisca um Português com sotaque. O guia para e dá atenção ao rapaz.

– Meu jovem, entenda uma coisa. Já vi outros “Coronéis” como o seu velho amigo, e posso te dizer com toda certeza. Eles preferem morrer a ter que desistir dessas buscas por suas crenças…

– Crenças?

– Sim. Crenças.

– Então… Manoa não existe!

– Manoa é uma lenda; é tudo que sei. Mas há quem precise acreditar que ela é real, e enquanto houver uma chance, por menor que seja, de que alguém a encontre, outros Fawcetts aparecerão e irão se perder na selva. E muitos irão dizer que esses aventureiros encontraram a cidade e passaram a viver nela; e por isso não retornaram…

Mesmo contrariado, Rimel aceita o destino do pai de seu melhor amigo.

O tempo segue. O Coronel enfrenta alguns contratempos, como gripes fortes e a perda da mula que carregava sua bagagem, mas Fawcett não desiste e, após uma semana de caminhada, desde que se despediu do guia e de Rimel, ele chega até o ponto em que havia definido no mapa como o ponto mais próximo da possível localização de Manoa. Dali, ele deveria seguir mais dois dias sem se desviar de sua rota, e sem o rio para lhe guiar.

– Agora falta pouco.

Na manhã do segundo dia, a montanha que o Coronel contemplou em sua meditação  já podia ser vista, e ele a alcançou à tarde do mesmo dia.

Não havia um caminho de pedras, como no “sonho”.

– Provavelmente a floresta encobriu o caminho de pedras.

Fawcett tenta justificar a ausência do caminho que o levaria à entrada de Manoa.

Diante da montanha, nada acontece.

A noite já estava chegando, e a descrença  começava a minar as forças do Coronel.

– Meu filho… Como será que ele está agora? Por que eu o trouxe nessa aventura insana?

Fraco, faminto, sem esperanças… Fawcett começa a duvidar de si mesmo. Aceita seu destino de morrer sozinho em um lugar em que ninguém encontrará seu corpo. Os olhos do Coronel se fecham. Seu corpo já não aguenta mais.

Dois homens se aproximam, eles se parecem com os indígenas da região. São da raça vermelha.

– Veja!

– Pobre homem… O que ele procurava por aqui?

– Talvez procurasse por Manoa.

– Isso torna sua morte mais triste… Ele quase a encontrou.

Nesse momento, Fawcett tosse.

– Ele está vivo!

O home faz sinal para algumas pessoas que estavam próximas. Um pequeno veículo com tecnologia antigravidade segue o grupo.

– Coloque-o no veículo!

Ninguém questiona.

Uma parte da montanha parece desaparecer quando o grupo se aproxima. Era a entrada para Manoa…

[1] Esta é uma obra de ficção. Para informações sobre o Coronel Fawcett indico a obra  O Enigma do Coronel Fawcett: o Verdadeiro Indiana Jones, de Hermes Leal.

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