ENTREVISTA: Armahda.

armahda_press

O Heavy Metal sempre teve um público restrito aqui no Brasil. Muitos músicos nacionais acabaram desistindo do gênero por falta de apoio dos fãs que, muitas vezes, preferem seguir no padrão tradicional de valorizar bandas estrangeiras. Isso fica claro para quem acompanha o cenário do Metal Nacional, pois bandas covers, ou seja, bandas que reproduzem obras de artistas internacionais, acabam encontrando um público mais fiel que as bandas autorais. Isso limita o espaço para a divulgação dos novos trabalhos, tanto na mídia padrão como nas casas de shows.

O número de bandas autorais dentro do Metal no Brasil vem diminuindo ao longo das décadas, e muitos artistas se perguntam por que a produção nacional não agrada ao público; então alguns abrem mão da criatividade e simplesmente fazem o famoso “mais do mesmo”, ou seja, acabam copiando algum padrão estrangeiro; e a cópia pode até agradar a alguns, mas não é  suficiente para dar crédito ao trabalho.

Infelizmente, essa tem sido uma tendência que atinge todas as expressões artísticas em nosso país; e às vezes são produzidos trabalhos que atendem ao mercado, mas não são produções artísticas, são meros produtos que têm o único objetivo de gerar lucro, pois não acrescentam nada ao púbico, são meras distrações sem conteúdo. Isso ocorre com a Literatura, as Artes Plásticas, o Cinema… E a Música também não fica fora desse padrão.

Mas para o bem da Nação, alguns brasileiros corajosos decidem nadar contra a corrente e valorizar o que é nosso, valorizar o nosso povo, a nossa terra, a nossa cultura e a nossa História. O resultado disso tem aparecido em trabalhos de fato brasileiros; que exploram não só a temática nacional, mas também registram um pouco da nossa essência.

E no Metal Nacional, mesmo com todas as dificuldades encontradas no gênero, já aparecem excelentes trabalhos. Um deles é o que vem sendo desenvolvido pela banda paulistana Armahda, que lançou o seu primeiro álbum em 2013. A temática escolhida pela banda em seu primeiro CD, Armahda, é a História do Brasil.

Para conhecer melhor esse trabalho, ninguém melhor que os integrantes da banda para apresentá-lo.

Segue uma excelente entrevista com os músicos do Armahda.

CULTURA BR – Nas matérias sobre o Armahda, encontramos a informação de que a ideia da criação da banda surgiu de uma parceria entre o vocalista, Maurício Guimarães e o guitarrista Renato Domingos. O primeiro CD, Armahda, foi lançado em 2013; e a banda ainda não estava completa. Fale um pouco sobre esse primeiro momento, sobre a produção e o lançamento do primeiro CD e sobre o processo criativo das 13 faixas do álbum.

 

ArmahdaRENATO DOMINGOS: Eu e o Maurício nos conhecemos desde 2000 ou 2001.  Na época, fizemos algumas jams, tocávamos alguns covers. Mas queríamos compor, ter um material próprio. Das diversas bandas que nos influenciavam, percebemos que várias delas escreviam sobre seus países de origem, sobre suas guerras e conquistas, diferentemente de bandas brasileiras que abordavam mais o folclore brasileiro do que acontecimentos reais. Desde então, decidimos escrever sobre a nossa História, sobre episódios que não deveriam ser esquecidos. Depois de um bom tempo, por volta de 2011, juntamos ideias de temas, melodias e harmonias. As ideias viraram músicas, que viraram demos, que viraram pré-produções, resultando essas 13 faixas – tudo aconteceu naturalmente.  Tínhamos um álbum completo. Foi então que contamos com a colaboração do Rafael Gomes Zeferino do AudioFusion Studio, que co-produziu, gravou, mixou e masterizou todo o álbum.

JOÃO PIRES: Eu conheci o Maurício há muito tempo, eu tinha uns 17 anos, por aí. E depois o Renato. Foram os caras que me fizeram voltar a tocar, depois de anos parado, ao me entregarem o CD completinho. Então não participei da composição de todas as músicas, mas em parte delas as coisas que eu fazia na bateria estavam lá. Quando começamos a ensaiar, usei o CD como referência, mas aos poucos vou colocando minha personalidade nos grooves e viradas. A ideia é usar, sim, influência de ritmos brasileiros aqui e ali. Mas, no fundo, o que tento fazer prevalecer é o peso do Heavy Metal.

ALE DANTAS: Uma curiosidade a respeito da formação é que, apesar de termos chegado depois, todos nós sempre estivemos relativamente próximos. Por volta de 2005, lembro de ter ouvido e assistido o Maurício e Cia tocando as primeiras versões de Canudos e Queen Mary Insane.

1599598_598495270219677_766537749_o

Maurício Guimarães em visita ao povo Kogui. “Buscando inspirações pré-colombianas”. FONTE: Armahda.

Para mim, foi uma grande realização pessoal ter sido convidado para fazer parte dessa banda e posso garantir que não pouparemos esforços para realizarmos mais uma etapa do lançamento, que é a execução das músicas ao vivo.

PAULO CHOPPS: Apesar de não termos participado da gravação do disco (eu, Alê e João), participamos bastante da transformação daquelas músicas para a execução ao vivo, dando um upgrade para que os fãs pudessem assistir e escutar algo que vai além do disco, e o resultado não poderia ter sido melhor. O retorno dos fãs tem sido incrível.

CULTURA BR – Há algum tipo de resistência do público quanto à temática escolhida, ou seja, História do Brasil?

JOÃO PIRES: Pelo contrário: só vejo apoio. É como se tivesse essa lacuna pra ser preenchida, porque os comentários são muito receptivos. A gente sabe que bandas que vieram antes de nós como Sepultura, Angra, Soufly e outras, já exploravam esse caminho e essa mistura, cada uma com seu estilo. Mas acho que o fato de focarmos nessa proposta cativou a galera. E a real é que a história do Brasil tem vários capítulos que se encaixam perfeitamente com a temática do Heavy Metal. Então o casamento foi perfeito.

DSC_2933

Show de estreia, 07 de setembro de 2014. FONTE: Hard and Heavy.

MAURÍCIO GUIMARÃES: Recentemente fomos convidados para tocar em uma universidade. As pessoas que nos convidaram para esse show, amigos nossos, ressaltaram uma condição para tal evento: que não levássemos a bandeira do Império. Foi um conselho para garantir nossa segurança pois, segundo eles, a ideologia predominante na faculdade onde seria o show é de caráter comunista.

Em nossos shows levamos bandeiras do Brasil e do Império, sempre expostas juntas no fundo ou nos amplificadores. Nunca expusemos somente a bandeira do Império isoladamente. Essa foi nossa postura desde nosso show de estreia, que foi no dia da comemoração da Independência do Brasil, 7 de setembro de 2014.

Respeitaremos as condições impostas. Queremos mais shows e, como as outras bandas independentes, temos dificuldades, pois os espaços para banda autorais ainda é escasso. Não somos políticos. Somos somente uma banda que quer contar ao mundo a história de seu país.

RENATO DOMINGOS: A ideia sempre foi lembrar do que aconteceu em nosso país. Não queremos nos posicionar politicamente, a não ser mostrar importância de ser patriota.

PAULO CHOPPS: Temos sempre apoio. Professores já vieram falar com a gente e disseram que já usaram músicas nossas em aula, que ajudou no interesse de alunos. Já vimos páginas de facebook de escolas, compartilharem publicações nossas ou matérias que fizeram sobre nós. Além disso, amigos próximos estão sempre sugerindo temas e curiosidades históricas.

show de estreia

Show de estreia, no Carioca Club em São Paulo. FONTE: Armahda.

CULTURA BR – Das 13 faixas do primeiro CD, qual a sua favorita? Por quê?

RENATO DOMINGOS: É muito difícil ter que escolher uma. Gosto muito da Canudos porque nela temos todos os elementos que representam o álbum: melodias folclóricas, partes rápidas e lentas, além de ter uma interpretação bem emotiva.

1150778_512848282117710_367782037_nJOÃO PIRES: Difícil dizer, já que todas foram compostas e são tocadas com o mesmo carinho. Mas eu, João, fico com Iron Duke, porque envolve a plateia com os backing vocals e tem uma pegada mais pesada do que rápida. E, claro, Paiol Em Chamas. Essa não tem como não mencionar.Ver a galera pedindo e cantando com a gente é sempre uma puta emoção.

PAULO CHOPPS: Isso varia o tempo todo, depende do momento, às vezes quando fico escutando, gosto mais de uma, mas na hora de ensaiar ou tocar ao vivo, acabo gostando de outra. Depende bastante da situação. Eu não sei se consigo escolher uma em especial, mas gosto muito de Armahda, Pathfinder, Canudos. Nos shows é sempre algo emocionante. Adoro tocar Queen Mary Insane também, e a versão que fazemos ao vivo de Uiara.

CULTURA BR – Há uma faixa fantástica inspirada em uma lenda brasileira, Uiara. A melodia é quase mágica e a letra é um poema inspirador. Como foi o processo de criação, houve algum tipo de pesquisa ou foi pura inspiração?

MAURÍCIO GUIMARÃES: É uma música que compus há mais de 10 anos atrás e, em 2012, finalmente, eu e Renato gravamos seus violões. Eu já conhecia a história da sereia brasileira nesta época, e a letra foi escrita em um tom generalista, sem muitas explicações sobre sua origem ou sua história, porém mais romantizado que os outros sons do álbum (talvez por inspiração de sentimentos que se manifestaram ou foram reprimidos por mim na época).

No momento de escrever uma descrição do lyric video, pesquisei a tese de mestrado de Sandra Ramos Casemiro, ”A lenda da Iara: Nacionalismo literário e folclore”, da Universidade de São Paulo, 2012. Citei também o poema “As Uiaras”, do folclorista Melo Morais Filho, 1884. Meu interesse pelo tema foi reacendido, por volta de 2013, durante a leitura da bioagrafia do marechal Rondon, na qual consta:

Fomos ter ao Timalatiá, ou Sacre, corruptela de sangue, nome dado ao rio por causa de uma anta morta e esfolada na margem pelos índios, a qual tingiu suas águas. Queria eu determinar as coordenadas geográficas de um grande salto que aí existia, a Zuritô-uamoloné — Salto de Mulher -, nome dado em virtude da lenda de uma iara, a qual para o abismo arrastava os incautos que se aproximavam“.

 ALE DANTAS: Nós a tocamos nos shows! Quando começamos a escolher o repertório, tínhamos um pouco de receio de como encaixaríamos uma música “docinha” em um show de Heavy Metal. Optamos por um arranjo que mesclou a sonoridade original dos violões com a energia das guitarras e o resultado não podia ser melhor. Temos uma incrível “power-ballad! É a nova versão, que é exclusiva nos nossos shows.

JOÃO PIRES: Gosto dessa música porque me dá uns minutinhos pra descansar.

CULTURA BR – Armahda é uma banda com produção impecável, qualidade musical indiscutível e ainda apresenta em suas letras um conteúdo de grande importância para a formação da sociedade brasileira. Teoricamente, é um trabalho artístico que deveria ter espaço certo na mídia e nos eventos musicais do país. Como isso tem acontecido na prática?

11046593_802904983112037_4754749881074744382_o

Divulgação. FONTE: Armahda.

RENATO DOMINGOS: Obrigado. Tivemos algumas ajudas importantes desde que o álbum foi lançado, e isso nos ajudou a alcançar boa parte do meio Heavy Metal no Brasil. Conseguimos fazer algumas apresentações importantes como as aberturas para o Sabaton e o Vicious Rumors em São Paulo, além do evento Metal Sundays, que prioriza bandas com trabalhos autorais. Acredito que, no Brasil, toda banda nova de metal encontra dificuldade. A cena brasileira tem certa resistência com o ‘novo’, mas isso vem mudando. Mesmo sendo uma banda 100% independente, o Armahda tem conseguido atingir pessoas. Creio que nossa temática tem contribuído para isso.

JOÃO PIRES: Sendo bem honesto: somos novos nesse mercado. Estamos aprendendo as coisas na base da tentativa e erro. Estamos entendendo como funciona o mercado da música e, em especial, do Heavy Metal. A proposta da banda tem sim um interesse especial da mídia, por tratar de um tema específico e cativante. Mas reverter isso em shows e espaço, é outra história. O Heavy Metal, aqui no Brasil, nunca foi música de massas. E a maioria dos grandes veículos ou mesmo os grandes festivais precisam de massa para fecharem a conta do investimento. Como uma banda nova, estamos ainda formando nosso público cativo. Então estamos aí, trabalhando pra conquistar mais e mais fãs: compondo sons novos, ensaiando, fazendo shows e trocando ideia com todo mundo que aparece pra assistir a gente.

PAULO CHOPPS: Na real, tem acontecido da mesma maneira que com qualquer outra banda, que é uma dificuldade geral do meio: a não valorização do trabalho autoral e, como o João falou, somos novos nesse mercado. Nós não temos assessoria no momento. Nós 5 que corremos atrás de tudo e,  infelizmente, ninguém na banda tem como bancar grandes investimentos. Mas até que estamos indo bem, sempre caminhando pra frente.

CULTURA BR – Você se considera um idealista? Por quê?

RENATO DOMINGOS: Como todo brasileiro, quero um futuro melhor. Uma das maneiras de contribuir pra isso é o que fizemos nesse álbum de estreia. Queremos que o público reflita sobre os acontecimentos do Brasil.

JOÃO PIRES: Eu considero o Maurício idealista. O cara é vegetariano.

PAULO CHOPPS: Sim, sô fódis   hahaha

CULTURA BR – Quais são os projetos da banda para 2015? Já estão pensando em um novo álbum?

JOÃO PIRES: Já, sim. Temos a sorte de ter o Maurício e o Renato como compositores compulsivos. Todo mundo chega com ideias, claro, mas o Maurício e o Renato são máquinas de melodias e letras. Impressionante. Então a ideia é não demorar muito para ter um outro álbum em mãos, embora não tenhamos decidido como vai ser. Mas acho que, não sei se todos concordam, 2015 é o ano de tocar pra caralho por aí e consolidar a banda como um nome de peso dessa nova geração do Metal Nacional, capaz de fazer grandes apresentações e encher casas de shows.

RENATO DOMINGOS: O tempo todo lembramos de temas. Muitos ficaram de fora do álbum e já sabíamos que utilizaríamos no próximo. E, com certeza muitos ficarão de fora, mas entrarão no terceiro…rs… Se tudo der certo, lançaremos um single ainda em 2015.

PAULO CHOPPS: Vem cerveja por aí! Aguardem.

CULTURA BR – Caso queira, deixe algumas considerações para os leitores.

MAURÍCIO GUIMARÃES: Apoiem o Metal Nacional, por favor, caso considerem justo. Obrigado a todos que foram aos nossos shows e aos que ainda irão!

RENATO DOMINGOS: Isso ai! Falem com a gente, sugiram temas. Vamos discutir a História. Valeu!

JOÃO PIRES: Venham assistir o Armahda ao vivo. Compor, lançar, dar entrevistas, tudo isso é muito legal. Mesmo. Mas nada que se compare a subir num palco, arrebentar tudo e ouvir a galera curtindo e cantando com a gente. Portanto, venham! Porra!

PAULO CHOPPS: Adoramos a interação com fãs e pessoas interessadas no nosso trabalho, e achamos o tema super importante pra todo país. É como dizemos: episódios da História do Brasil que não deveriam ser esquecidos.

10302107_647182095350994_5486061894978782286_n

11102789_815134961889039_555019532631792656_nArmahda nasceu no final de 2011 quando o vocalista e guitarrista Maurício Guimarães (Vocal e violão) reuniu algumas ideias e entrou em contato com Renato Domingos ( Guitarra) com o foco de tratar sobre a história do Brasil. Nas letras eles falam sobre a Guerra de Canudos, Revolução Armada, historia de Duque de Caxias e da Rainha Maria I e lendas como o da Uiara e do Matinta Pereira. Produziram o disco em dupla contando com a ajuda de alguns amigos para a gravação dos outros instrumentos.


Hoje a banda é formada por:

Maurício Guimarães – Vocal e Violão

Renato Domingos – Guitarra

João Pires – Bateria

Ale Dantas – Guitarra

Paulo Chopps – Baixo

FONTE: Seletores de Beat

PARA MAIS INFORMAÇÕES VISITE ARMAHADA.

Anúncios

Uma resposta em “ENTREVISTA: Armahda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s