ENTREVISTA: Rom Freire.

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Imagem promocional de Abaité, de Rom Freire. Fonte: ABAITÉ.

A 9ª arte tem seu público fiel há gerações, e vem se desenvolvendo bastante pelo mundo, principalmente a partir da década de 80; e aqui no Brasil contamos com excelentes profissionais, criadores de grandes personagens; alguns deles fazem parte da infância de muita gente, como é o caso dos personagens de Ziraldo e Maurício de Sousa.

Mas existem trabalhos incríveis que passaram despercebidos quando foram lançados, e estavam no anonimato, trabalhos que hoje podem ser conhecidos graças à internet e à dedicação de profissionais apaixonados por sua arte. Um desses trabalhos é o Projeto Encontros, de Lancellott Martins; do qual faz parte o quadrinista Rom Freire.

Além de colaborar com o trabalho de resgate da memória da 9ª arte no Brasil, Rom Freire também faz parte de uma geração que tem feito a diferença no novo mercado, em que projetos ousados têm atraído o público e começam a abrir mais espaço para a produção de HQ’s nacionais, principalmente de forma independente. Com certeza esses trabalhos farão a diferença; o que tornará a produção nacional mais competitiva, fazendo com que  alcance o reconhecimento que merece.

Confira a excelente entrevista concedida por Rom Freire.

CULTURA BR – Você participa de vários projetos, entre eles há um que se destaca bastante, pelo fato de valorizar os artistas nacionais de uma forma incrível, é o Projeto Encontros, de Lancellott Martins. Fale um pouco sobre esse projeto.

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Robô gigante Audaz atravessando a Baía da Guanabara.

ROM FREIRE – O Lancelott é um grande pesquisador e catalogador dos quadrinhos nacionais. Então ele teve a brilhante ideia de reunir nessa HQ personagens publicados desde 1900 até 1980, como o Garra Cinzenta, Audaz, Capitão Gralha, Dr. Alpha, Golden Guitar, Mystiko, Flama, entre outros. O catalisador da trama é o personagem Catalogador, criado pelo próprio Lancelott. Mas além dos personagens clássicos, ainda teremos a participação de personagens contemporâneos, como a Loonar, de minha autoria, que é o avatar de uma poderosa entidade cósmica. No decorrer da história, Lance ainda teve o cuidado de deixar pequenas homenagens a editoras e pessoas que fizeram parte do mercado nacional de quadrinhos, mas não vou estragar a surpresa. Vocês terão que ler a revista para encontrar esses “easter eggs”, como são chamados hoje…

CULTURA BR – Você tem um currículo extenso na 9ª arte, já ilustrou obras internacionais e participa de projetos excelentes aqui no Brasil; agora pretende lançar seu primeiro projeto autoral, Abaité. Como surgiu a ideia para criar Abaité, qual o tema da HQ e como tem sido trabalhar com uma história sua?

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Imagem promocional de ABAITÉ retratando o Curupira.

ROM FREIRE – A ideia de ABAITÉ surgiu depois que vi uma imagem maldosa no Facebook que exaltava personagens mitológicos celtas e denegria nossos personagens folclóricos. Como sempre fui fascinado pelo nosso folclore e por nossas lendas indígenas, me senti na obrigação de mostrar a essas pessoas mal informadas e preconceituosas que personagens como o Anhangá tem força e carisma suficientes para andar em pé de igualdade com Orcs e Elfos e conquistar novos leitores. Então reuni algumas lendas indígenas e decidi contá-las em formato de HQ de terror. Nosso herói é um índio chamado Iberê que, perdido na selva durante uma caçada, confronta-se com o Anhangá, a Iara, o Curupira, a Boiúna e o Jurupari, e é através dessa interação de personagens que as lendas desses seres folclóricos serão contadas. Trabalhar com personagens tão ricos tem sido muito gratificante, principalmente na hora de conceber visualmente cada um deles. Estou tentando dar uma roupagem nova a todos, algo que ainda não tenha sido mostrado em uma HQ, mas mantendo suas principais características indígenas. O Curupira, por exemplo, eu retratei como um índio anão, de pele muito branca e cabelos vermelhos, o que, em minha opinião, o deixou com um aspecto bem assustador. Como na lenda original, ele aparece montado sobre um porco do mato, ou Queixada, como é conhecido no interior do país. Já para o visual da Boiúna, estou usando fotos de sucuris como referência, para que ela fique o mais real possível, mas com um tamanho gigantesco, é claro!

CULTURA BR – Qual o seu contato com a Cultura Indígena Tradicional do Brasil? Na sua opinião, qual a importância dessas culturas tradicionais para a formação da sociedade brasileira?

ROM FREIRE – Infelizmente não mantenho contato direto com eles. O mais próximo que cheguei foi durante a adolescência, pois na minha sala de aula havia um aluno indígena. Em época de festa na aldeia, ele sempre aparecia na escola com as pinturas típicas e eu achava aquilo muito bacana. Os índios foram os primeiros habitantes do nosso país, mas infelizmente a ganância e a violência do homem branco dizimou a maioria deles e muita coisa dessa cultura ancestral deve ter se perdido. Mas sei que ainda existem aldeias tradicionais que tentam manter seus ritos e costumes e isso é importante para a identidade cultural desse povo e da nossa, já que muito do conhecimento deles ainda é aplicado hoje em dia em nosso cotidiano, da língua a culinária. Nosso país está coalhado de cidades e logradouros com nomes indígenas, como Tremembé, Upaon-Açu, Copacabana… Pessoas com nomes indígenas se encontra aos milhares diariamente: Jaciara, Moacir, Iracema, Jandira… E parte da sua dieta ainda hoje é encontrada em nossas mesas como o beiju (tapioca), a moqueca e a mandioca, da qual se faz a farinha, entre outras coisas…

CULTURA BR – O projeto Abaité é independente, o lançamento será pelo Catarse? Qual é a previsão para o lançamento?

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Detalhe da página 1 de ABAITÉ.

ROM FREIRE – Estou estudando os sites de financiamento coletivo disponíveis para ver qual oferece mais vantagens ao projeto. Tópicos importantes como o prazo disponível para a campanha, porcentagem cobrada pelo site e popularidade do site entre os apoiadores, serão fundamentais para a escolha. A revista está em fase de produção e como além dela ainda preciso desenhar revistas para outras pessoas e editoras (meu único ganha-pão), vocês podem imaginar como é cansativo. Mas devagar se vai ao longe, como diz o ditado, e a aceitação do público na rede social, cada vez que posto uma arte nova, me deixa cada vez mais motivado! Acredito que em meados de julho a campanha já esteja no ar. Até lá estarei finalizando as últimas páginas. Daí, enquanto faço a diagramação, aguardo o prazo de arrecadação do site. Dando tudo certo, a revista entra na gráfica no início de outubro. Assim, caso seja selecionado, o lançamento será feito ou no FIQ, em novembro, ou na Comic Con, em dezembro. Meu objetivo e comparecer aos dois eventos com a revista para venda! Espero ver vocês lá!!!

CULTURA BR – No Brasil acontece algo estranho, as pessoas geralmente não conhecem nossa História e a nossa Cultura; já estão acostumadas a aceitar padrões culturais estrangeiros, o que tende a criar certa resistência a tudo que é fruto da nossa terra. Você acredita que a Arte pode contribuir para mudar esse cenário, ou seja, você acredita que trabalhos artísticos, como os da Literatura, Música, HQ’s, entre outros, podem contribuir para que nós, brasileiros, possamos aprender a valorizar a nossa terra?

ROM FREIRE – Em minha opinião, são fundamentais! A cultura norte-americana já faz parte do nosso dia a dia através de livros, HQs, cinema, séries de TV… E isso não é ruim! Vivemos em um mundo globalizado, onde tudo está ao alcance de um clique! Conhecer outras culturas enriquece o ser humano. Mas conhecer e valorizar o que é nosso, nos dá algo que não tem preço: IDENTIDADE! Conheço alguns desenhistas, roteiristas e fãs de HQ que são professores e a utilizam em sala de aula como material didático! Inclusive, já fui convidado por eles a dar palestras ou atuar como jurado de concursos de arte entre os alunos, e isso é algo que muito me alegra! Devemos cada vez mais dar espaço a nossa cultura, valorizar nossos artistas e pensadores. Mas, atenção: isso não significa consumir qualquer coisa só porque é produzida aqui! Devemos ter o bom senso de saber escolher (e oferecer!) apenas o melhor. Eu condeno todo tipo de extremismo! Acho um absurdo quem generaliza e diz que todo quadrinho nacional é ruim. Como em qualquer parte do mundo, há coisas boas e ruins, só precisamos saber escolher. Às vezes vejo leitores torcendo o nariz para uma HQ quando ela retrata o cangaço. Aí eu pergunto: porque o norte americano pode falar de caubói, o japonês pode retratar o samurai (e ambos são muito bem aceitos pelos leitores brasileiros) mas nós não podemos abordar o cangaço? Será que nossos personagens típicos não são tão interessantes quanto os deles? Claro que são!!! Temos muitas histórias boas a serem contadas, sejam passadas no sertão, na favela, nos centros históricos de nossas cidades… Precisamos enterrar de vez nossa “síndrome de vira-lata”!

CULTURA BR – Abaité será uma série? Em caso negativo, você pretende trabalhar a temática nacional em outro projeto?

ROM FREIRE – ABAITÉ é um projeto único. Mas claro que tenho outras ideias que tem como mote nossa brasilidade. Minha próxima empreitada se chama CARCARÁ e está em fase de roteirização. E caso vocês queiram conhecer outros artistas que lidam muito bem com o tema da brasilidade, posso sugerir os trabalhos de Klévisson Viana, Beto Nicácio, Iramir Araújo, Danilo Beiruth, André Diniz, Elmano Silva, só para citar alguns…

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Título do novo projeto CARCARÁ.

 

CULTURA BR – Caso queira, deixe algumas considerações para os leitores.

ROM FREIRE – Abram suas mentes! Quadrinhos não se resumem a sujeitos musculosos em uniformes multicores. Nem tampouco a menininhas nipônicas de olhos enormes. Há muito mais a ser conhecido e apreciado e cada vez que abrimos uma revista que fuja do clichê, crescemos como seres plurais, sem amarras ou vínculos. Afinal, HQ não é chamada de 9ª Arte a toa! E muito brigado, Francélia, por mais esse espaço de divulgação. Cada vez que abordamos seriamente o assunto HQ, todos os artistas que trabalham nesse meio, se beneficiam.

PARA MAIS INFORMAÇÕES VISITE O BLOG ROM FREIRE.

ROM FREIRE

Rom Freire.

Rômulo Freire Martins nasceu dia 25 de setembro de 1973 na cidade de Santa Inês, interior do Maranhão. Ainda criança, estimulado pela avó materna, tomou gosto pela leitura e por palavras cruzadas. Leu grandes clássicos da literatura em suas versões originais como Pinóquio, Viagens de Gulliver e O Livro das Maravilhas de Marco Polo. Nessa mesma época começou a fazer os primeiros rabiscos, copiando os desenhos de revistas infantis como Gasparzinho, Luluzinha, Brasinha, Mônica e revistas de terror como Cripta, Pesadelo, Calafrio, Mestres do Terror e os super-heróis Marvel e DC, entre outros. Na adolescência foi office-boy em um escritório de contabilidade e fez apontamentos de Jogo do Bicho em uma pequena banca em frente a uma lanchonete. Através de amigos que moravam em São Luís, participou da revista espanhola HEROS DE LA CALLE, com a HQ “Origem”. Aos 19 anos mudou-se para a capital, São Luís, para trabalhar em uma agência de publicidade como ilustrador e diagramador. Durante esse período entrou para o Singularplural, grupo de quadrinhistas maranhenses e, ao lado de Joacy Jamys, Iramir Araújo, Ronilson Freire, Beto Nicácio, Jonilson Bruzaca e Angelo Ribeiro, lançou as revistas SINGULARPLURAL, FUSÃO e FÚRIA. Dezessete anos depois, em agosto de 2009, largou a publicidade para trabalhar exclusivamente com HQs e, agenciado pelo Pencil Blue Studio de Marcelo Salaza, publicou seu primeiro trabalho, o título M7 da editora 12 Comics (EUA), seguido por Steel Soldiers, da White Eye Studios (ING). Pelo mesmo estúdio, ilustrou HQs curtas como Fossil Wars, Playing Pretend e The Last Hope para revistas norte americanas e o primeiro número da série de terror The Envy. Como convidado, ilustrou a capa da revista virtual Red Slime Magazine #4. Através do Um Hombre Studio, de Leonardo Santana, trabalhou em várias séries eróticas para sites norte-americanos: The Cronicles of L.A.W., Omega Fighters, Poison, Abducting Daisy, Troublemakers, Dark Gods, Starbusty, ASSpace e Monster Violation. Também desenhou duas edições da série Golden Gang, de Daniel Schenström, lançada pela Ka-Blam Digital Printing. Atuando também no mercado brasileiro, em 2010 colaborou com a revista Do Além, onde fez a capa e lançou sua HQ, Grimorium. Depois fez a capa do Almanaque Meteoro #4, de Roberto Guedes e uma pinup do personagem Transmutor, de Marcelo Salaza, para a revista Ultra Mix. Em 2013 desenhou a adaptação para os quadrinhos de FAUSTO, de Goethe, com roteiro de Leonardo Santana e cores de Dinei Ribeiro, a ser lançada pela Editora Peirópolis. Atualmente participa como desenhista do Projeto Encontros, de Lancellott Martins, que resgata super-heróis brasileiros clássicos como Garra Cinzenta, Flama, Golden Guitar, entre outros, e os reúne com novos personagens como Catalogador e Loonar. Também desenha o super grupo Os Invictos, de Rafael Tavares, na série Convergência Primordial. Ilustrou uma HQ de 10 páginas do personagem Lorde Kramus, de Gil Mendes e fez capa para o personagem Crânio, de Francinildo Sena. Para os EUA, desenha o super-herói Dreadlocks, da editora Urban Style Comics, de Andre Batts. Abaité é seu primeiro trabalho autoral.  Fora da prancheta, ajuda a divulgar novos talentos brasileiros através do blog Tinta Nankin e divulga seus contos e poemas no blog Datilographando.  

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