ENTREVISTA: Vilson Gonçalves.

As lendas da Europa ganham forma através do universo da fantasia, com todos os seus seres incríveis, como Orcs, Elfos, Fadas, etc; e aqui na América não é diferente, temos aqui uma riqueza de seres, histórias e lugares encantados, que fazem nossa imaginação ganhar asas e voar bem alto. Mas, infelizmente, a fantasia americana tem pouco espaço em trabalhos artísticos, principalmente na Literatura.

Pensando nisso, Vilson Gonçalves decidiu ir fundo nesse mundo pouco explorado até mesmo por nós, filhos das Américas, e o resultado é um trabalho gigantesco, que não coube em um único volume e gerou a série A Canção de Quatrocantos.

Conversamos com o autor e ele mesmo nos explica melhor a sua obra.

CULTURA BR – Fale um pouco sobre como você se tornou um escritor e sobre o que o inspirou a escrever A Canção de Quatrocantos. Houve algum tipo de pesquisa para construir a história?

10417781_1422075428069796_40344735296472502_nVILSON – Quando entrei no curso de Artes Visuais, moleque ainda, 17 anos, tinha uma verdadeira paixão pelo mangá. Vendo que eu era um desenhista relativamente bom, e que o mangá estava na crista da onda, meu colega Álvaro Fonseca propôs que fizéssemos uma HQ de terror. Dele seria o roteiro, meu o lápis. A premissa envolvia exploradores deparando-se com uma tribo de guerreiras canibais no meio da Amazônia, meio que uma interpretação livre do relato fantástico sobre Francisco de Orellana e a tribo das amazonas, basicamente as icamiabas do folclore brasileiro.

Me empolguei, e comecei a pesquisar sobre culturas tradicionais da América do Sul, em especial as civilizações andinas. Produzi um calhamaço de rascunhos e character designs detalhando diferentes tribos e povos. Quando apresentei os esboços ao meu amigo, ele estranhou e disse que eu tinha viajado violentamente na maionese, que a ideia era ser uma história de terror fechada, não um estudo antropológico. Para ser justo, ele gostou dos desenhos, mas a ideia da HQ morreu ali.

Como àquela altura eu já havia me afeiçoado à pesquisa, decidi que precisava canalizar todo aquele material de alguma forma criativa. Se não era para ser a HQ, seria algo maior. No começo fiquei divido entre fazer uma série de mangás ou um livro. No final venceu o livro porque eu gosto de desafios, e a escrita me parecia uma mídia mais desafiadora que o desenho.

O universo que surgiu dessa amálgama de influências começou a tomar forma mesmo por volta de 2005. Comecei a escrever sistematicamente e até 2007 eu tinha produzido a base de O Homem de Azul e Púrpura e do segundo livro. Só defini o nome Quatrocantos em 2013, e é uma referência a dois casos: o Tawantinsuyu (As Quatro Regiões), o nome quéchua do império inca, e a região de Four Corners, nos EUA, onde há ruínas impressionantes deixadas por populações pré-colombianas conhecidas como pueblos.

Assim, posso dizer que me tornei escritor por acidente. Desde pequeno gosto de contar histórias, mas demorei para encontrar a mídia certa. Certamente tenho muito que aprender sobre o ofício da escrita, mas tem sido uma aventura maravilhosa, e não me importo de aprender errando e remendando.

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“Wayra”, fanart de Theodore Guilherme. Fonte: A Canção de Quatrocantos.

CULTURA BR – No livro O Homem de Azul e Púrpura você apresenta ao leitor o universo de Quatrocantos, e fica claro que há muitas histórias para serem contadas dentro desse universo. Todos os livros da série terão Wayra como protagonista ou podemos aguardar novos personagens ganhando destaque?

VILSON – A saga de Wayra foi pensada para consistir de três livros, talvez quatro. E era para fechar o ciclo por aí mesmo. O fato de ele ser um viajante profissional reflete meu desejo de apresentar o máximo possível desse mundo para o leitor. Atualmente penso que A Canção de Quatrocantos tem potencial para outros arcos de histórias, e esteja certa de que há outras histórias que eu gostaria de contar. Se serão contadas ou não, só o futuro dirá. Já serei um autor feliz se conseguir encerrar o arco de Wayra.

CULTURA BR – Em Quatrocantos há tribos patrilineares e matrilineares, e as diversas tribos apresentam seus próprios costumes, crenças e organizações sociais. Essa diversidade cultural apresentada na obra é incrível, e você soube trabalhar muito bem o que seria uma tribo de mulheres guerreiras, com sua visão de mundo e sua própria mitologia; além da interação entre esses diversos povos, com seus conflitos e alianças. Você conseguiu ir além da visão ocidental sobre homem e mulher e criou personagens, e povos, que fogem dos estereótipos de costume. Essa visão já fazia parte de você ou houve algo que despertou a sua atenção para esse tipo de organização social?

VILSON – Então, de certa forma tudo isso começou com a ideia das icamiabas canibais. Tudo começa com elas, com o componente de estranheza que a figura da mulher guerreira desperta. Mesmo hoje, muitas pessoas ainda sentem essa estranheza, e não apenas homens, veja bem.

Como leitor, gosto das coisas bem explicadinhas e costumo me ressentir de pontas soltas, então sinto que, se você apresenta uma sociedade no qual as mulheres exercem os papeis de guerreiras e provedoras, um assunto muito pertinente para qualquer sociedade e que trata da ruptura de estereótipos, isso demanda uma boa descrição. Quero personagens bem construídos, fundamentados, redondinhos, sejam homens ou mulheres. Não podem ser bonequinhos vestidos de azul e rosa. Pessoas monocromáticas, “mulheres femininas” e “homens másculos” sempre me pareceram bem desinteressantes, e quero que meus personagens sejam interessantes.

Gosto de histórias com guerreiras porque elas te forçam a repensar os seus conceitos. Ser mulher não te impede de guerrear ou trabalhar, nem te torna necessariamente carente ou fragilizada, porque isso são fatores da sua personalidade e muito moldados pelo meio em que você vive. Então, em Quatrocantos, há sociedades patriarcais e matriarcais, embora eu prefira observar todas elas como civilizações que desenvolveram seus modos de ser, suas próprias trajetórias culturais. Não há nada de particularmente revolucionário nisso, mas se vier a levantar as sobrancelhas dos leitores, se fizer as pessoas refletirem, serei um autor contente.

CULTURA BR – Uma cidade marcante em Quatrocantos é Yporanga, não só pelo nome em Tupi, mas pelo povo que vive nessa cidade. Qual foi sua inspiração para criá-la?

VILSON – É um trocadilho. O Ipiranga, Rio Vermelho, é um marco poético do nascimento do Brasil, assim como Yporanga, Rio Bonito (na história traduzi como Águabela), é a primeira grande cidade da nação hetá-murená. Em minha mente, visualizei um grande lago e um rio nascendo dele, ambos chamados Águabela. A cidade às margens do lago teria o mesmo nome. Sua estrutura, que será melhor descrita no segundo livro, combina elementos da capital asteca, Tenochtitlán e de Cahokia, uma grande cidade pré-colombiana construída às margens do Mississipi.

CULTURA BR – Todos os povos criados por você em Quatrocantos foram inspirados por culturas que realmente existiram; dentre essas culturas qual a sua favorita? Por quê?

VILSON – É difícil escolher. Dos Povos Antigos, certamente os wayar, que são baseados principalmente nos incas, mas com vários elementos adicionais de outros povos antigos e licenças poéticas. Apesar de um tanto moralistas e rigorosos no cumprimento de suas leis, eles são organizados, se preocupam muito com o bem-estar coletivo e tem uma veia artística fortíssima. Das nações hetá, tenho uma predileção pelo povo de Abayuká, que se assemelham muito aos tupinambás da costa brasileira, mas com papeis de gênero invertidos. Suas guerreiras são destemidas, alegres e valorizam a liberdade e a simplicidade, tanto que nunca construíram cidades ou monumentos e sempre lutaram ferozmente para não serem absorvidas pelo império de Murená.

Interessante como escolhi duas culturas completamente diversas, opostas na verdade.

CULTURA BR – As lendas da América vão aparecendo ao longo da obra, algumas delas são bem conhecidas aqui no Brasil, como o Boto e as sereias, entre outras; mas tudo isso interage na história de uma forma diferente da qual estamos acostumados, fazendo com que essas lendas se tornem vivas. Você também faz referencias à paleontologia das Américas, e cita animais pré-históricos da América do Sul, como o tatu gigante e o megatério; mas nesse primeiro volume eles são somente apresentados ao leitor. Podemos esperar esses elementos participando da ação na história ao longo da série?

VILSON – Alguns componentes mitológicos vão adquirir grande relevância, principalmente os gigantes e os gururetúk, minha interpretação do Curupira. Outros vão aparecer de forma mais periférica ou serão apenas mencionados. Gosto de mexer com a cabeça do leitor e quero deixar dúvidas no ar. Os animais da megafauna aparecerão sim, em contextos diferentes e com importâncias diferentes também. É só esperar.

CULTURA BR – Você tem disponibilizado na internet, de graça, alguns contos que expandem o universo de Quatrocantos. Qual deles você mais gostou de escrever? Por quê?

VILSON – O Estranho é meu favorito. Foi o primeiro de vários contos produzidos em sequência. Ele é bem sentimental e água com açúcar, mas tem seu peso e possui uma ligação forte com a narrativa de A Canção de Quatrocantos. Também fiquei muito feliz em escrever sobre os gigante com um pouco mais de detalhamento.

CULTURA BR – Há previsão de data para o lançamento do próximo livro?

VILSON – O título provisório da continuação é Sangue de Guerreiras. Minha pretensão é apresentá-la este ano ainda, mas nunca se sabe. O primeiro foi publicado em um surto de empolgação após quase dez anos de espera, elaboração, reelaboração, adições e remendos. A principal consequência negativa foi que O Homem de Azul e Púrpura chegou às prateleiras recheado de erros. Não gostaria de dar este gostinho de decepção a meus leitores novamente. Quero que o segundo livro fique perfeito, e isso exige uma longa rodada de leituras e correções, por mais que a base já esteja pronta.

CULTURA BR – Caso queira, deixe algumas considerações para os leitores.

VILSON – Gostaria de agradecer apenas. Sei que a literatura fantástica é um mundo governado por orcs, elfos e anões. Uma narrativa que fuja a este padrão deve parecer estranha para o leitor de fantasia médio. Por isso sou eternamente grato àqueles que se arriscaram e me deram uma chance. Se alguém se debruçou sobre meu livro, dedicou-me um pouquinho do seu tempo enquanto eu desnudava um pouquinho da minha alma. Isso não tem preço.

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PARA MAIS INFORMAÇÕES VISITE A CANÇÃO DE QUATROCANTOS.

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2 respostas em “ENTREVISTA: Vilson Gonçalves.

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